quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Hipocrisia

Sabe aqueles ditados que dizem sobre cuspir no prato que comeu? Então, por mais chulos que possam ser, se aplicam a algumas situações do cotidiano. Eu já devo ter cuspido no prato comi, deveras. Todos nós somos assim. Mas, me estarrece  uma pessoa que cospe, vomita e ainda quebra o prato que lhe serviu algum dia.  Pois bem, vamos parar de metáforas, o que eu quero falar é sobre cotas.

Sou estudante de uma Universidade Federal, sou cotista pela minha condição social. Na época, foram cerca 25 por cento das vagas de cada curso, destinadas a cotista socais. Foram tempos de muitas discussões nas aulas do pré-vestibular, formado só por cotistas. Haviam os cotistas que não se importavam com porra nenhuma, queriam apenas as cotas, e as defendiam da forma mais idiota possível. E haviam aqueles que tentavam entender toda aquela questão.

Confesso que quando esse benefício apareceu,  fiquei com receio em aceitá-lo. Será que não era um preconceito contra mim mesma aceitar as cotas socais? Não. Não era. Nunca foi. E olha que eu demorei a entender. Só entendi mesmo, quando uma professora nos deu "um tapa na cara" em uma aula de literatura. Tuca, o nome dela. Nos disse sobre nossa condição. Sobre a demora da melhoria nas escolas públicas. Sobre a nossa ÚNICA oportunidade de estudar para o pré-vestibular naquele cursinho preparatório que nem, ao menos, era oferecido pelo governo. Iniciativa privada.

Vergonha? Por que vergonha em aceitar uma "reparação" que o governo, incapaz, teve de oferecer para tentar ver alguma mudança na história de ensino público superior?. Não, as cotas não são a melhor forma de se "reparar" uma educação deficiente. Mas, se é a única forma possível no momento, é preciso pararmos de gracinha, e aceitá-la. E foi isso que fiz. Aceitei. Sem vergonha alguma. Inclusive, hoje, estudando na Universidade Federal do Espírito Santo, arrisco-me a dizer que sou uma ótima aluna em minha turma. Cotista e ótima. Com toda a modéstia. Mas, é claro que não sou cega. Existem os cotista que entraram lá e largaram o interesse na porta de entrada do campus. Mas isso é caso para outra discussão. Isso é sobre interesse.


A questão que quero levantar é: Sei que as cotas não são um milagre da educação. Sei também escutar e até aceitar os argumentos de quem não é a favor delas. Mas, sempre recusei, de todas as formas, a ter que engolir as palavras sujas daqueles que são cotistas sociais, alcançaram a vaga que queriam, estão exatamente onde sonharam,  e hoje, diante das vagas reservadas para negros, têm a cara-de-pau de dizer: Cotas raciais não passam de preconceito!

Sabe o que é preconceito?  Preconceito é aceitar as cotas socais, se beneficiar e depois cegar-se contra a própria história de seu país, e ser contrário às cotas raciais. Então quer dizer que quando se trata sobre seu benefício, você aceita. Quando se trata sobre beneficiar a raça que mais sofreu e ainda sofre no brasil e no mundo, você é contrário. Parabéns, só não o chamo de idiota, porque acabei de chamar.

Sabe quantos negros tem estudam na minha sala? Três. contando comigo. Na universidade inteira? Acredito que não passa de 15 por cento.

Ao meu ver, quem é contra as cotas socais E RACIAIS. É mais íntegro do que quem aceita uma, para o próprio benefício, e recusa a outra porque não passa de um egoísta.  Isso sim é ser racistas. Aquelas típicas pessoas que, em suas épocas de cursinho,  defenderam as cotas socais com o argumento de que nem todos são iguais, porque não vivem a mesma realidade. E agora, bradam sem vergonha alguma afirmando que todos são iguais sim,  e diferenciar um do outro é preconceito. 

Um (DES)conselho para vocês, não se levem a sério. Jamais.








Magalli Souza Lima















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