segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Percepções





O quarto escuro, com poucas brechas de luz, avisa que já hora de se levantar. Acordado ele já estava desde a madrugada, pois o barulho da janela atravessou o seu sono. Mesmo assim, permaneceu deitado, sem coragem para olhar a hora, até que o celular apontou às 7h da manhã. Não havia ânimo, vontade e nem objetivos para enfrentar aquele dia. Era só mais um dia, cansativo como todos os outros.

Puxou o cobertor para o lado, respirou fundo - como se estivesse numa preparação para enfrentar uma guerra - e ficou de pé. Foi uma noite quente, e as noites quentes costumam sugar a força de qualquer ser, até mesmo do cachorro de estimação que nem se atreveu a latir cedo para acordar a todos da casa. Na ida ao banheiro percebeu que uma teia de aranha havia atravessado a porta. "Nem mesmo a aranha nojenta conseguiu dormir".

O reflexo no espelho mostrava as feições de uma pessoa acabada. Suado, com olhar sofrido e marcas de insônia. Só escovar os dentes não resolveria aquela aparência, então tratou de tomar banho. Banhos sempre são bons, revigoram, mas aquele chuveiro era assustador. Havia um fio desencapado que sempre soltava faíscas enquanto a água caia. Todas as vezes que ele olhava para cima sentia a sensação de que o chuveiro falava: Eu posso te matar em segundos, seu idiota!

Morrer eletrocutado dentro do banheiro deveria ser uma morte dolorida, já que, choques parecem ser aterrorizantes. Mas a pior parte era mesmo morrer pelado. Vergonhoso. Por isso, ele sempre se apressou no banho, no máximo cinco minutos debaixo da água e já sai num pulo do box. Sente como se estivesse driblado a morte, estilo o filme “Premonição”.

Saiu do banheiro ainda nu. Apesar de achar que morrer pelado era vergonhoso, andar sem roupas pela casa era deslumbrante e dava a sensação de liberdade. O cachorro, ainda deitado, olhou para ele como se quisesse dizer “seu corpo de passarinho desnutrido me enoja”. Mas não importa, cachorros não falam, só pensam. E enquanto só pensarem continuarão a ser os melhores amigos do homem.

Ele foi para a cozinha procurar algo para comer. O pão de forma estava vencido há uma semana, mas ainda dava para aproveitar.  O leite era desnatado, tão sem gosto e ralo que parecia ter vindo de uma vaca desnutrida e anêmica.  Enquanto preparava o pão, a mãe chegou à cozinha e levou um susto ao ver o filho. “Meu filho, o que você tá fazendo pelado na cozinha? Que coisa horrível!!!”. 

Esperou o café forte da mãe ficar pronto, bebeu e foi logo para o quarto colocar uma roupa. Hoje é dia de encontrar a namorada antes da aula. Então, nada de usar blusas sujas, calças velhas ou o all star furado. Passou perfume, desodorante, pegou a mochila, o boné e saiu.  Na rua, ligou para ela: “Oi, tudo bem linda?... Já to chegando, onde você tá?.... Tá bom, até mais, beijo”. Desligou o celular e ficou pensativo. “Será que ela tá chateada comigo? Me tratou mal”

Os passos começaram a ficar lentos. E a única conclusão a que conseguiu chegar foi: “Ela vai terminar comigo, droga!!! Eu juro que me mato se ela fizer isso. Eu morro eletrocutado no chuveiro, de roupa é claro”. Inconformado, continuou andando devagar. Agora precisava de argumentos para que a namorada não terminasse com ele. Ou, tinha também a opção de tentar descobrir porque ela, afinal, iria querer terminar o namoro (?).

Pensou. Não conseguiu chegar a uma reposta sequer, pois ele mesmo se considera um bom namorado. Aprendeu a tocar vilão só para ela, está sempre disposto a conversar, sabe de tudo o que ela mais odeia, e o que mais ama também. Sempre lhe presenteia, a leva para sair, não é pegajoso e já disse um "Eu te amo" por três vezes, mesmo sem ela responder nada. 

Sentou-se no ponto de ônibus onde os dois combinaram de se encontrar. E os pensamentos continuaram a fluir. Recordou-se da vez em que compôs uma música para ela, e só recebeu um "obrigada" e um beijinho no nariz. Do dia em que foi conhecer o pai dela e foi surpreendido com a frase: "Pai, esse aqui é meu grande amigo". E também da noite em que escutou ela conversando com a amiga e dizendo que estava enrolada com um "cara aí".

"Droga, ela é uma vadia sem coração e eu sou um idiota cego!". Ela nunca se importou com ele, nem sequer se preocupou em chegar na hora certa, já estava atrasada há dez minutos. Vive com aquele ar de superioridade como se quisesse dizer "Eu sou muito melhor que você, portanto EU mando nessa relação". Ele, definitivamente, estava inconformado e revoltado com as conclusões.

Quando percebeu lá vinha ela, na esquina. Com aquele sapato irritante que faz barulho, aquelas unhas pintadas com cores vibrantes e brochantes e a maldita bolsa de flores, que nunca-cabe-nada-dentro. O jeito de andar se igualava a um cachorrinho chihuahua e, quando ela se aproximou, surgiu o cheiro horrível do perfume de vômito azedo que ele sempre odiou. 


Não era possível que aquele "ser" pudesse COGITAR a ideia de terminar o namoro com ele. "Quem ela pensa que é? EU é quem mando nessa relação hipócrita!". Afinal, em toda a relação sempre tem um que se destaca mais que o outro. Um é sempre o que encanta, o outro é quem foi encantado. E adivinha quem ele queria ser? Bom, o resultado foi um tapa na cara (dele, é claro) quando ela ouviu a frase: Você é insignificante para mim!


E depois do tapa ele se manteve intacto. Ela? A essa altura já estava na outra esquina chorando sem entender nada. Os dois nunca mais aconteceriam. E quando ele olhou para o lado viu uma coruja na árvore o observando com os olhos arregalados, era como se ela dissesse: Rancoroso mal amado. As corujas são assustadoras, mas são seres sábios, portanto era melhor recolher-se à própria insignificância e correr para aula.




Personagens:
Ele
Ela
A mãe
O cachorro
A aranha
A coruja






quinta-feira, 20 de outubro de 2011

“Há tempos tive um sonho. Não me lembro”

Um dia quando ela acordou o mundo já havia caído. O céu não era mais azul, e o violeta que reluzia nele era inesquecivelmente mais bonito. As ruas quase desertas ainda abrigavam alguns que, como ela, acreditavam ter ficado para trás. Mas, apesar do espanto, a sensação era de repouso, descanso.

Não surgia em nenhuma estrada deserta um rosto conhecido. E, mesmo com toda a calmaria, os pássaros não rondavam mais o vento. Ela perguntou para o senhor ao lado o que estava acontecendo:

– Ficamos para trás.   

Foi só uma frase dura e clara. A mente entendeu, mas os olhos não, eles ainda percorriam todos os pequenos cantos em busca de alguém. Não importavam as circunstâncias, ela só queria alguém com quem dividiu momentos bons enquanto o céu ainda era azul. Era um lugar tão sereno, dava para se viver tranquilamente ali, mas alguém teria de aparecer.

Andou por algumas horas. Encontrou alguns senhores simpáticos sentados à beira das calçadas, esperando suas senhoras. E mesmo depois de procurar tanto, os pés ainda persistiam em caminhar. Na casa amarela morava a amiga de tantos e tantos anos atrás. No portão de ferro era o primo estranho que lá ficava.

Voltou para a casa.

Lá os quadros, as roupas e os livros lhe lembravam a todo o momento que ela nunca viveu a própria vida sem aqueles personagens tão leais e lindos que se chamavam Família. Deitou-se no sofá, a tarde parecia ser eterna, uma tarde-eternal. Talvez a noite não chegasse mais.

Depois de tanta espera, ela finalmente aceitou, eles não iriam voltar. Eram perfeitos demais, sinceros, francos e honestos. Se realmente existisse alguém por cima das nuvens ele já havia tratado de buscá-los. Não perderia essa chance. E antes que a própria mente lhe perguntasse o porquê de ter ficado para trás, ela se levantou. Colocou uma música para tocar, aumentou o som a todo o volume e dormiu.

“E nossa história não estará pelo avesso. Assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas para contar. E até lá vamos viver, temos muito ainda por fazer. Não olhe pra trás, apenas começamos.
O mundo começa agora. Apenas começamos
(Metal contra as nuvens – Legião Urbana) 
15 anos sem Renato Russo
  

sábado, 8 de outubro de 2011

Eu, por mim mesma

Minha mente me avisou da ausência que paira em mim mesma, sinto falta de me olhar no espelho, de observar minhas mudanças, das noites aconchegantes de sono depois das leituras profundas. Sinto a necessidade de escutar minhas músicas, de conversar com meus amigos, de observar minha própria vida e julgar os meus atos tão calculadamente pensados e perdidos.

Por um breve momento, quis me enganar em achar que essas minhas "saudades" são apenas prazeres pequenos e bobos. Mas, a verdade, é que cada um desses "minúsculos e irrelevantes" desejos formam a pessoa que sempre fui, apaixonada pelos pequenos detalhes e prazeres, como deitar no sofá, no escuro, e pensar sobre as coisas mais tolas da mundo.

Tentei procurar motivos para provar a mim mesma que não sinto tanta falta da minha essência, e foi aí que percebi: parei de escrever para mim, abandonei meu blog - o primeiro lugar em que consegui por em prática uma parte do que sinto e penso - depois disso, a única coisa que posso fazer é admitir, eu não estou sendo eu por completo, e isso arde como um arranhão contínuo na pele.

Tenho vivido como uma zumbi, andando, olhando, estudando, trabalhando, comendo e esperando noites de sono medíocres e vazias. Viver se resume em uma rotina que, na maioria do tempo, me faz sentir raiva, repulsa, desgosto e desprezo. Nada me agrada, tudo é insignificante e sem objetivo. Na maioria do tempo tento ser alguém comum, mas como? eu não acredito em nada, em quase ninguém, em nenhuma divindade e isso já me torna um ser estranho.

Quero mesmo é largar tudo isso, redescobrir os prazeres que me faziam deixar a vida  correr comigo. Eu quero ter tempo para cantar, sonhar, escrever, traçar minha vida e por meus planos em prática. Nunca quis tanto voltar no tempo, voltar a ser criança, mudar alguns rumos, ajeitar outros e não me perder nessa trajetória.