quinta-feira, 20 de outubro de 2011

“Há tempos tive um sonho. Não me lembro”

Um dia quando ela acordou o mundo já havia caído. O céu não era mais azul, e o violeta que reluzia nele era inesquecivelmente mais bonito. As ruas quase desertas ainda abrigavam alguns que, como ela, acreditavam ter ficado para trás. Mas, apesar do espanto, a sensação era de repouso, descanso.

Não surgia em nenhuma estrada deserta um rosto conhecido. E, mesmo com toda a calmaria, os pássaros não rondavam mais o vento. Ela perguntou para o senhor ao lado o que estava acontecendo:

– Ficamos para trás.   

Foi só uma frase dura e clara. A mente entendeu, mas os olhos não, eles ainda percorriam todos os pequenos cantos em busca de alguém. Não importavam as circunstâncias, ela só queria alguém com quem dividiu momentos bons enquanto o céu ainda era azul. Era um lugar tão sereno, dava para se viver tranquilamente ali, mas alguém teria de aparecer.

Andou por algumas horas. Encontrou alguns senhores simpáticos sentados à beira das calçadas, esperando suas senhoras. E mesmo depois de procurar tanto, os pés ainda persistiam em caminhar. Na casa amarela morava a amiga de tantos e tantos anos atrás. No portão de ferro era o primo estranho que lá ficava.

Voltou para a casa.

Lá os quadros, as roupas e os livros lhe lembravam a todo o momento que ela nunca viveu a própria vida sem aqueles personagens tão leais e lindos que se chamavam Família. Deitou-se no sofá, a tarde parecia ser eterna, uma tarde-eternal. Talvez a noite não chegasse mais.

Depois de tanta espera, ela finalmente aceitou, eles não iriam voltar. Eram perfeitos demais, sinceros, francos e honestos. Se realmente existisse alguém por cima das nuvens ele já havia tratado de buscá-los. Não perderia essa chance. E antes que a própria mente lhe perguntasse o porquê de ter ficado para trás, ela se levantou. Colocou uma música para tocar, aumentou o som a todo o volume e dormiu.

“E nossa história não estará pelo avesso. Assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas para contar. E até lá vamos viver, temos muito ainda por fazer. Não olhe pra trás, apenas começamos.
O mundo começa agora. Apenas começamos
(Metal contra as nuvens – Legião Urbana) 
15 anos sem Renato Russo
  

Um comentário:

  1. Consegui imaginar várias cenas no texto;sentir o vazio;a tarde;muito legal.

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