sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O sufoco



Indiferença, algo que todos sentem, mas poucos confessam, na verdade tenho uma teoria: Somos todos indiferentes, porém o grau e a intensidade das indiferenças variam de um para o outro. Mas, não posso dizer que ser indiferente está na índole do ser humano, pois meu Mundo se limita aos poucos lugares do Brasil em que visitei, e só a partir deles é que posso dizer: Acredito que a indiferença é algo intrínseco dentro das veias suadas dos brasileiros. Minha concepção de indiferença se resume ao ato de agirmos com insensibilidade para com a situação do próximo, enxergar a dor alheia como um tédio. Mas, e a explicação para isso? Será que foi o sistema capitalista que, de forma opressora, nos implantou uma resistência aos sentimentos dos outros? Ou será que, acreditamos nisso para nos livrarmos da condição de máquinas com cérebros confusos e coração embolorado de insensibilidade?

Sim, os olhos dos brasileiros que encontro todos os dias nas ruas se desviam da realidade que nosso cotidiano oferece. Ignoram o fato de sermos semelhantes, rejeitam a comoção. Certo dia, dentro no ônibus um jovem negro, com uma sacola na mão, entrou e procurou um lugar para se acomodar, era visível que algumas pessoas seguraram com força as próprias bolsas, num ato imedido de temer um roubo. O jovem acanhado e mal vestido percebeu as atitudes, mas as ignorou. Sentou-se logo a minha frente e perguntou para a senhora do lado para onde o ônibus iria, a senhora fingiu não escutar a pergunta e permaneceu calada. Um silêncio que impossibilitou o jovem de saber para onde estava indo, mas acima de tudo, um silêncio que lhe dilacerou a alma e o apunhalou com a vergonha de não ser correspondido.

Atitudes mesquinhas e impensadas nos mostram que a confiabilidade do povo se perdeu em meio as vielas escuras das ruas, e hoje nos resta o sufoco de sermos seres humanos. O garoto voltou-se para trás, onde me avistou e perguntou a mesma coisa, eu disse que não sabia, afinal sempre desço antes. Mas antes dele se virar, perguntei ao senhor ao lado se sabia o rumo do ônibus, ele respondeu e eu repeti as palavras para o garoto. Fui prestativa, era apenas isso que ele precisava, palavras que não exalassem o medo. Mas medo do quê? Da cor escura? Ou da roupa suja? Acredito que, o medo de todos era mostrar o lado humano que ainda está guardado em nosso corpo, talvez nos olhos, nas mãos. Mas eu sei que está guardado em algum lugar.

Escutei, ainda essa semana, que é preciso acreditar no ser humano. E perguntei a mim mesma: Eu ainda acredito no ser humano? Sinceramente, se eu dissesse um SIM estaria mentindo para minha própria consciência. Afinal, responder uma pergunta de um jovem ignorado é um ato que faz de mim uma pessoa mais humana? Não posso deixar de lado todas as vezes que, inconseqüentemente, fingi não enxergar o andarilho, que mora na calçada, ou as crianças que fazem malabarismos nos sinais. Olhei para dentro de mim e procurei minhas esperanças, mas só encontrei alguns vestígios delas misturadas ao egoísmo.

Pouco tempo depois o jovem se virou novamente e perguntou para onde eu iria, respondi e ele acrescentou: Você 'tá' indo pra faculdade? Eu disse que não, na verdade, estava voltando dela e indo rumo a minha casa. Percebi um olhar de agradecimento pelas respostas, pode parecer mentira, mas me orgulhei de não tê-lo ignorado. Meu ponto já estava se aproximando, sinalizei para que o ônibus parasse e, quando me levantei para descer percebi que os olhares indiferentes, que antes rondavam o garoto, agora estavam me cercando. Me senti na pele do garoto por alguns segundos. Me incomodou muito, desci e me aliviei daquele sufoco. Mas e o garoto, quando se livrará do incomodo de ser um sufoco?