sábado, 23 de outubro de 2010

Saudade


Não é algo claro, nunca ouvi palavras que possam explicá-la. Nem mesmo o dicionário, com sua notável inteligência, me convence do que seja a saudade:


"Lembrança grata de pessoa ausente ou

de alguma coisa de que alguém se vê privado"


Lembranças são só lembranças, sejam boas ou ruins.

Saudade é algo preso dentro de nós, escondido.

E aparece em momentos nostálgicos, para nos

lembrar que por trás de nosso ego inflado

existe um ser tão frágil e desprotegido,

que implora por uma vida boa.


A falta de tudo, de pessoas, momentos, lugares

e aromas são resquícios de um tempo

que se foi, mas antes de ir

fez questão de deixar

um rastro marcado

nas raízes do

nosso peito.

Um beijo

na alma.

É por ela que não nos privamos da vida, pois faz questão

de guardar cada sentimento passado, intenso e doce

para depois abrirmos essa caixa e nos depararmos

com a brisa suave de tempos felizes.

E calha no pensamento a dúvida:

O presente é tão bom

quanto foi o

passado?

Com ela quero passar o resto de meus dias,

mesmo que seja a saudade de ontem, ou

a de anos atrás, sempre será suficiente.

E se o que vivo hoje não valer a pena

irei fazer da saudade meu

portifólio de vida.



"Saudades é um dos sentimentos mais urgentes que existem"

(Clarice Lispector)


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Resenha do livro "Cabeça de Porco"


Segundo o dicionário online inFormal o termo Cabeça de porco significa "habitação coletiva de pessoas de classe pobre; cortiço". Hoje já é possível acrescentar também o ambiente "favela" no significado, pois no livro Cabeça de Porco percebe-se que tal termo é usado para designar não só o local, mas também a boca de fumo, lugar onde acontece a "economia", algo que veremos adiante.

O livro é fruto de uma parceria entre MV Bill (Rapper), Luiz Eduardo Soares (Antropólogo) e Celso Athayde (Produtor de MV Bill, idealizador e coordenador da CUFA - Central Única das Favelas) onde se reuniram em um só tema. Muitos diriam que a obra retrata a violência nas favelas, outros apontariam apenas as "ramificações" da vida no morro, são elas: Criminalidade, drogas ou tráfico. Eu digo que todos os exemplos estão certos, e ainda há mais o que acrescentar, como a desestruturação familiar, o desamparo social, a corrupção da polícia, o racismo, entre outros, por isso mesmo irei unir todas essas subdivisões e definir o tema do livro como: A vida na Favela.

A obra parte de uma pesquisa que MV Bill e Celso Athayde iniciaram para retratar como vivem as comunidades marginalizadas. Eles percorreram o Brasil de Norte a Sul e visitaram as favelas mais conhecidas pela violência e criminalidade, uma jornada angustiante a cada parada. Vivem a realidade de um Brasil que poucos conhecem, e por isso mesmo quem nos apresenta esse contexto são os relatos de moradores, com histórias marcadas pelo sofrimento da violência, das drogas e mortes.


Os relatos mostram a bola de neve em que a situação se transformou, a começar pela economia das drogas, sim, esse produto que a sociedade vulgariza e condena é a fonte de renda de muitas pessoas que trabalham, vigiam, matam e vendem para sobreviver nesse meio. Na maioria dos casos quem usa as drogas como fonte financeira também se envolve como usuário, e o mais chocante é que mais da metade dos envolvidos são crianças e adolescentes que foram "recrutadas" para essa vida.


Em meio às histórias impactantes, há situações de racismo e preconceito em que os próprios autores revelam ter passado. E para intercalar e até dar sentido ao sentimento de revolta que é causado nos leitores, o livro dispõe as análises de Luiz Eduardo Soares, que uniu sua pesquisa e formou questionamentos tocantes e reais, além de examinar as condições de vida e o psicológico de cada situação. Com ele percebe-se que a pesquisa não apenas apresenta um problema, mas o explica e nos mostra como tudo chegou a tal ponto, instiga os leitores a reagirem e a estudarem sobre alguma solução. Por falar nela, a solução não é algo fácil e tão esperado, na verdade já se inicia o livro com a seguinte proposta: "A intenção deste livro não é denunciar, mas apontar saídas". Entretanto, em várias outras passagens percebe-se que os próprios autores temem não haver saída.

O leitor lida o tempo todo com o chamado "sistema", que sobrevive pela economia dos produtos ilícitos e leva crianças e jovens a trabalharem em prol disso para sobreviverem. A desestruturação familiar é a causa que, na maioria das vezes, induz menores de idade a buscar ajuda financeira, e apoio ou incentivo moral. Para isso eles aprendem a mexer com armas, matam quando é preciso e usam drogas para ficarem alertas a qualquer entrada da polícia na favela. E ao fim o "sistema" só sobrevive se a polícia deixar, algo contraditório, mas a polícia ajuda, cobra propina, favorece certas bocas de fumo, ignora situações de risco na comunidade. Sendo assim, não cumprem o papel de ajudar a comunidade, apenas levam adiante o "sistema".

É uma obra que nos leva a pensar, questionar, não parar por aqui e buscar cada vez mais entender e descobrir esse outro Brasil escondido. Talvez não se possa ajudar em muita coisa efetivamente, mas compreender o que se passar já é algo muito bom para adquirir criticidade sobre um assunto que só é conhecido publicamente do ponto de vista do policial e do Estado. Cabeça de Porco é uma chance de mostrar o outro lado da moeda, e indagar a sociedade se realmente houve alternativas para os indivíduos que chamamos de bandidos, que tratamos com frieza, que escorraçamos de nosso meio, mas que são seres humanos iguais, tão iguais a nós.



Resenha feita por Magalli Lima
para a aula de: Teorias e práticas jornalísticas
Matéria do curso de Jornalismo da
Universidade Federal do Espírito Santo